Rastreabilidade dos alimentos: podemos avançar com o auxílio da tecnologia?

Rastreabilidade dos alimentos: podemos avançar com o auxílio da tecnologia?
3 de julho de 2017 admin

Rastreabilidade ao longo de um sistema de produção alimentar, e aí me refiro desde a produção na lavoura até a chegada à mesa do consumidor, ainda é um desafio a ser conquistado. Embora a transparência das informações seja um objetivo que as partes interessadas em todo o sistema alimentar buscam compartilhar, os obstáculos para os consumidores, distribuidores e empreendedores ainda são imensos e cheios de nós. Mas ao final, ter essas informações de forma transparente e acessível, só traz benefícios ao consumidor e a todos os atores envolvidos ao longo da cadeia produtiva.

Então, que obstáculos são esses?

Antes de mais nada, os padrões de rastreabilidade no Brasil necessitam melhorar. As mudanças no perfil e na demanda dos consumidores brasileiros estão demandando a uma mudança em larga escala no suprimento de alimentos “sadios” desde sua origem na lavoura. Em seguida, o longo caminho percorrido após deixar a porteira da fazenda, passando por atravessadores, mercados (feiras, sacolões, supermercados…), industrias (quando são processados) e seu devido armazenamento. E em terceiro lugar, avalio como as marcas de consumo estão investindo para fundamentar suas reivindicações e cumprir a regulamentação exigida por órgãos certificadores. Do meu ponto de vista, acredito que esses obstáculos não são de todo ruins, muito pelo contrário, vislumbro oportunidades para os empreendedores criarem novos modelos de negócios ajudando a melhorar o sistema de rastreabilidade e certificação no nosso pais.

Minha jornada através da cadeia produtiva me levou a contatar produtores rurais, ONGs, algumas certificadoras e varejistas afim de que eu pudesse entender melhor cada ponto dessa cadeia. À medida que discutia as condições e necessidades com cada um desses stakehoders, identificava várias áreas e gaps onde, por outro lado, recentes avanços tecnológicos poderiam criar oportunidades de empreendedorismo de forma que todos saiam ganhando. Em termos gerais, estas aberturas para a inovação dividem-se em duas categorias: rastreabilidade histórica, a qual vou abordar agora e cadeias produtivas encurtadas, que vou deixar para comentar numa próxima ocasião.

Empregando a tecnologia no mundo da rastreabilidade histórica da cadeia produtiva

Com os avanços contínuos em tecnologias como Internet de Coisas (IoT) sensores e redes, robótica, computação móvel, BigData e hardwares está se tornando possível ter uma coleta de dados descentralizada em novas formas, que sequer eram imagináveis num passado recente.

Na pratica isso se traduz numa coleta e digitalização de dados do processo produtivo em um caderno de campo digital, dados esses que podem ser transmitidos a outros agentes plugados na rede da cadeia produtiva. Como exemplo, posso ilustrar o caso de produtos alimentares frescos, onde os sensores podem ser colocados em caixas de produtos para distinguir e identificar essa caixa, rastrear a sua localização GPS, registar o seu frescor com base na data de colheita, registar a temperatura e a humidade de armazenamento, registrar todo tratamento químico feito por defensivos durante seu desenvolvimento afim de dar parâmetros de Limites Máximo de Resíduo (LMR) e até informar dados de logística desde a fazenda até chegar à mesa do consumidor.

Isso cabe também a produtos commodities como, soja, cana-de-açúcar, café e citros, que podem sofrer com contaminações e misturas no meio do caminho produtivo. As tags de DNA podem criar um registro rastreável ao longo da cadeia produtiva até seu processamento na indústria, de forma a fornecer informações de origem, tais como, variedade, se são ou não geneticamente modificados etc.

Além da coleta de dados, há uma oportunidade de canalizar essas informações de uma só vez e torná-las acessíveis. No entanto devemos levar em conta que produtos agrícolas como as commodities, laticínios, carnes e frutos do mar têm cadeias de suprimento totalmente diferentes, por isso muito provavelmente não haja possibilidade de se ter um único provedor de software que possa oferecer uma “Solução standard global” capaz de unir tudo numa mesma plataforma. Nenhuma indústria confiaria nestes dados centralizados em um só interessado, afinal eles podem ser manipulados ao gosto de seus interesses. Este é o lugar onde vejo uma oportunidade potencial para a aplicação da tecnologia blockchain – o sistema de ledger (livro-razão) distribuído (DLT) usado para transações com criptomoedas como por exemplo o bitcoin.

O sistema de rastreamento da cadeia alimentar com o blockchain, funcionaria (no meu entender) como cadeias de registro das atividades, ou seja, o blockchain fornece um token sempre que um item de alto valor é criado e registrado no sistema. Esse token é emitido por uma entidade confiável (certificadora, por exemplo) e é usado para autenticar o ponto de origem e a cadeia de custódia do item à medida que o registro vai mudando de mãos.

A plataforma descentralizada do Blockchain para a distribuição de verificações oferece um meio para travar falsificações, fraudes e outras ações que de outra forma poderiam comprometer a autenticidade. Assim, a proveniência pode ser mais precisamente rastreada em toda a rede da cadeia alimentar desse complexo mundo. Como disse, é um sistema descentralizado onde se tem transparência e credibilidade.

Além disso, à medida que ultrapassamos a passagem da papelada no sistema, nota-se que o método baseado em cadeias de blocos para passar dados, proporciona uma melhor conexão das marcas com seus consumidores por conhecerem melhor as origens de seus alimentos, comparado com as marcas que não usam a tecnologia blockchain.

A implementação de práticas de rastreabilidade com a tecnologia blockchain é apenas um ponto de entrada potencial para os empreendedores que queiram desenvolver esse modelo. Entendo que o software para esse sistema também precisa de componentes de hardware.

A tecnologia blockchain empregada na agricultura é algo totalmente inédito e poderá causar uma revolução positiva, trazendo inúmeros benefícios em processos empregados no ecossistema agro. Por isso acredito que em médio curto prazo já teremos a tecnologia implantada em vários desses processos.

Por Milton Suzuki