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Blockchain como você pensa, talvez não exista

Blockchain como você pensa, talvez não exista
14 de Maio de 2018 admin

Blockchain como você pensa, talvez não exista

por Thiago Padovan

Blockchain é um termo que está ainda sendo muito utilizado; se você chegou aqui, certamente já deve ter ouvido falar sobre isso diversas vezes.

Eventos e mais eventos acontecem, muitos meetups são realizados, diversos cursos surgem, textos e artigos de todos os tipos são escritos, tudo isso é ótimo, mas…

…como o assunto é novo e complexo, e essa palavra está sendo utilizada massivamente e por pessoas com todo o tipo de formação, acabam ocorrendo desentendimentos sobre o que significa e isso muitas vezes mais atrapalha mais do que ajuda a explicar a que se refere.

Uma das confusões com que tenho me deparado frequentemente é a explicação de uma maneira tão genérica que acaba dando a entender que existe “O” Blockchain da mesma maneira que existe a internet.

Sinto informar, mas Blockchain da maneira como você aprendeu, talvez não exista.

Vejo hoje Blockchain como um movimento sócio-tecnológico. Social pois vem escancarar e provocar reflexões sobre governança, a forma como estamos acostumados a organizar nossas empresas, instituições e demais tipos de organizações, relações de poder e até o papel do Estado em um mundo altamente complexo, rápido e conectado.

Obviamente é também um movimento tecnológico pois, desde o advento do Bitcoin, foi possível uma infraestrutura tecnológica tão incrível que mudou a forma como olhamos as possibilidades de transação de valor entre as pessoas. E como diz o Nassim Taleb no texto Bitcoin… “Não importa se o Bitcoin vai dar certo ou não… nós já sabemos como faz isso”.

Portanto, é preciso um entendimento mais cuidadoso sobre as diversas estruturas tecnológicas e de governança que estão surgindo por trás das iniciativas que se denominam Blockchains. Só assim seremos capazes de compreender esse movimento em sua plenitude e propor soluções que fazem sentido.

Quando encaramos dessa maneira, podemos dizer que é uma tecnologia de base, que junta outras tecnologias e que oferece um registro de transações distribuídoem diversos pontos. Esses pontos são qualquer pessoa ou iniciativa que se dispõe a baixar o software desse protocolo, destinado a propagar as transações correntes, sem a necessidade de uma prévia autorização para realizar essa tarefa, ou seja, qualquer pessoa deve ter a possibilidade de fazer isso.

A validação das transações se dá através do conceito de “consenso distribuído“, onde todos os pontos da rede (ou nós) que fazem essa validação, devem chegar ao consenso de que as transações são legítimas e foram realizadas. Para se chegar a esse consenso, os protocolos Blockchain hoje em dia utilizam o Proof of Work, ou a prova de trabalho, que são hardwares ou poder computacional dedicado, executando o software do protocolo e participando de uma competição com os demais validadores pelo fechamento do bloco e o efetivo registro dessas transações de forma distribuída.

O conceito dos blocos encadeados, trouxe também a possibilidade de imutabilidade das transações já registradas. Após um certo número de validadores registrarem aquela transação, ela fica virtualmente impossível de ser desfeita ou adulterada. Em outras palavras, pode ficar mais caro tentar reverter uma transação na rede do que trabalhar em favor dela.

Outra característica imprescindível é que seu código seja aberto. Acredito que não é preciso falar muito sobre isso, nesse contexto, se o código não for aberto, não é possível enquadrar a iniciativa como um Blockchain.

Isso tudo acaba oferecendo auditabilidade real, quando qualquer nó pode verificar o histórico das transações daquele protocolo sem a necessidade de nenhum tipo de autorização prévia para isso também.

Alguns exemplos de protocolos que possuem essas características são os do Bitcoin, do Ethereum, Dash, Litecoin, Monero, Zcash e Decred .

Outras soluções que surgiram inspiradas nesse movimento são chamadas de DLT’s (Distributed Ledger Technologies), ou algumas vezes de Blockchains Privadas, que são protocolos, muitas vezes proprietários, que utilizam algumas das características dos Blockchains que mencionamos acima, mas nunca em sua totalidade.

Essas iniciativas não contém o conceito de mineração (validação) independente, ou auditabilidade aberta e muitas vezes nem seus códigos são abertos, nesses casos, na minha visão, não devem ser considerados Blockchains no sentido original do termo.

Alguns exemplos são o Hyperledger, o Corda e o Ripple.

Essas iniciativas não devem ser desmerecidas, pois em alguns casos, podem realmente trazer benefícios muito interessantes que podemos abordar em outro momento. Porém, identificar essas diferenças é fundamental para o melhor entendimento de todo esse ecossistema.

Resumindo… quando falamos de Blockchain, estamos nos referindo a uma infraestrutura tecnológica que permite transações diretas P2P (ponto-a-ponto), com seu código aberto, com validação (mineração) e auditabilidade independentes e sem a necessidade de permissão prévia para fazê-lo, com consenso distribuído e registros imutáveis.

Em meio a tanta confusão, tentar ser claro e objetivo para não criar mais desentendimento é fundamental.