Por Juliana Sato

Nos últimos dias provavelmente você deve ter escutado os rumores de que a Tesla não irá mais aceitar bitcoin como forma de pagamento dos seus carros ou até mesmo que se desfez dos seus bitcoins, em razão de, segundo Elon Musk, ser uma moeda “que consome energia não renovável”.

Alguns dizem que os tweets de Elon Musk foram capazes de derrubar o valor do bitcoin para menos de U$ 45k, lembrando que a máxima foi U$ 65k.

Embora não possamos afirmar com exatidão os motivos que levaram à atual formação de preços do bitcoin, o dito “efeito Elon Musk” (o grande ruído gerado no mercado) foi sentido globalmente e de forma instantânea em todos os mercados e operadores do mundo cripto.

Por conta disso, fez com que muitas pessoas voltassem a discutir sobre a volatilidade desse mercado, sua insegurança e suas instabilidades. Isto porque no mercado tradicional não vemos essa “manipulação” ocorrer de forma desenfreada como foi nos últimos dias, em que a cada “tweet, uma emoção, uma correção de valor do bitcoin…”, no qual você dormia e acordava com uma novidade do mercado e mais, sem direito a pausa no final de semana ou horário de “expediente” de abertura e fechamento do mercado.

Isso é ruim? Não necessariamente…

O sistema do Bitcoin quando definido no Whitepaper de Satoshi Nakamoto previa a descentralização e, principalmente a autonomia do sistema que trabalharia 24 horas por dia, 7 dias da semana ininterruptamente, sem a necessidade de agentes intermediários, sendo as partes responsáveis pelas suas próprias transações.

Se isso é um dos fundamentos do protocolo, esse efeito manada deveria ser esperado por todos não?

Isto é, cada parte pode a qualquer momento (segundos, minutos, horas ou dias depois do twitter) movimentar sua conta, comprando, vendendo, trocando seus bitcoins, ou seja, não depende de uma aprovação de uma entidade central, ou mesmo, um período de “lock-up” para resgate das suas moedas.

Exatamente pelos princípios do próprio protocolo, a resposta do mercado é instantânea e a sensibilidade e volatilidade consequentemente mais percebida por todos.

Por conta disso, todo o mundo cripto é uma piada de mal gosto que fica refém de twitter de bilionários egocêntricos e não pode ser levado a sério? Não!

O mercado tradicional também é assim: refém de anúncios e propostas de bilionários, chefes de Estado que manipulam o sistema do jeito que querem e como querem! A diferença? Existe toda uma estrutura que faz com que essa manipulação seja mais lenta e menos percebida por todos, isto é, um regulador pode ordenar que cessem todas as transações até que as pessoas se acalmem e os preços se estabilizem novamente. É uma forma de acreditar que esse modelo protege seus participantes.

A verdade é que todos deveríamos ser responsáveis pelas nossas ações, inclusive, a de deixar ou não nosso capital investido em determinado lugar ou não.

O que se vê no mundo cripto é uma “livre” manifestação e rápida resposta às provocações que o mercado faz. Se esse é o modelo ideal? Não sabemos ainda, mas é possível observar que há uma crescente adoção dessa nova sistemática.

Deve ser observado que toda mudança causa estranheza, dúvida e insegurança, mas não significa obrigatoriamente que isso seja ruim.

Essas “consequências” da fala de um já deveriam estar previstas como um cenário para quem está nesse mercado, pelo simples fato de que em sua concepção a ideia de liberdade nas transações pressupunha que efeitos manadas podem acontecer com maior frequência, isto porque como em todos os mercados existem aqueles que simplesmente seguem os outros, sem necessariamente entender o motivo. Faz parte.

E isso só mudará quando as pessoas quiserem ter educação financeira e investirem em seus próprios estudos.

 

 

Juliana Sato – Strategy Advisor da Blockchain Academy e Business Advisor na MB Digital Assets. Advogada especialista em distressed assets. Atua no mercado de capitais há 8 anos. Pós graduada em Processo Civil e Direito Empresarial pela FGV com extensões executivas em administração e finanças pela University of La Verne e Insper, bem como direito falimentar comparado pela University of Oxford e Columbia Law School. Cursando bacharelado em Gestão da Tecnologia da Informação pela FIAP.