Português English

Escolas criam cursos de olho nas profissões do futuro

Escolas criam cursos de olho nas profissões do futuro
12 de setembro de 2019 zweiarts

Escolas criam cursos de olho nas profissões do futuro

Objetivo é capacitar e fazer pensar sobre as novas tecnologias

Por Barbara Bigarelli, Valor Econômico

Diante do impacto da transformação digital, as escolas de negócios brasileiras estão investindo em novos cursos, formatos de ensino e plataformas de conteúdo para oferecer a capacitação técnica que os profissionais precisam e as empresas procuram. A pretensão de grande parte delas, porém, não é formar super especialistas em blockchain, cibersegurança ou inteligência artificial.

As instituições, tradicionais e novas, estão montando programas apostando em três frentes: o ensino de uma nova tecnologia, a reflexão sobre como ela pode ser aplicada para gerar valor dentro da organização e a requalificação de profissionais para cargos que as empresas não conseguem preencher. “Elas sabem hoje que, caso 5% do que planejam criar for aprovado, elas não terão programadores ou desenvolvedores para colocar em prática”, afirmou José Cláudio Securato, presidente da Saint Paul.

Olhando para essa lacuna, a escola de negócios amplia sua parceria com a IBM, iniciada há um ano e meio com o lançamento da plataforma de ensino LIT, e traz ao Brasil um programa global da companhia focado na capacitação de competências técnicas. “A ideia do programa é auxiliar tanto aquele profissional da área de negócios que precisa se requalificar e conhecer temas que estão impactando seus negócios, como qualificar pessoas que nunca tiveram contato com as novas tecnologias”, afirmou Alcely Strutz Barroso, executiva de programas globais para universidades IBM América Latina.

O IBM Skills Academy surgiu em países africanos e no leste europeu e chegou aos Estados Unidos. Ele oferece cursos on-line de 100 horas de duração, incluindo o aprendizado básico de tecnologias como blockchain, internet das coisas (ioT) e computação quântica. O módulo on-line é complementado com discussões em sala de aulas de instituições parceiras da IBM em cada país — nos EUA, por exemplo, são 20 universidades. No Brasil, a Saint Paul vai oferecer inicialmente os cursos de inteligência artificial e cibersegurança a partir de março de 2020.

O formato de ensino híbrido, segundo Securato, é uma forma de o aluno refletir sobre as ferramentas, metodologias e colaboração necessárias para aplicar o conhecimento técnico adquirido. “As empresas evoluíram, mudaram o dress code, trouxeram o head de inovação, estão tentando se mover. Mas pegar uma tecnologia e converter a organização inteira para uma estratégia nova é complexo”. Com o custo de R$ 5,3 mil por módulo, a meta da Saint Paul é formar 300 alunos nas primeiras turmas.

No segmento de educação executiva, no qual o programa se encaixa, a escola irá concorrer, mesmo que indiretamente, com instituições que surgiram nos últimos anos para oferecer capacitação para as chamadas competências do século XXI.

Na Tera, escola fundada em 2016, uma das premissas é qualificar profissionais que já atuam em áreas novas e não têm graduação para ser, por exemplo, um “product manager”. A outra é trabalhar a aplicação de ciência de dados no mundo dos negócios, qualificando com novas competências, por exemplo, engenheiros e cientistas da computação. Eles representam 60% do público do curso de data science, que já formou 250 profissionais. Os outros 40% são executivos que lidam com a transformação digital e querem entender como essa área funciona para formar equipes mais preparadas.

“Como esse curso é presencial e exige conhecimento em programação e estatística, há um nivelamento prévio, realizado no DataCamp, a principal plataforma de dados”, diz Leandro Herrera, fundador da Tera.

O nivelamento on-line também é uma ferramenta usada no ensino da Digital House, que chegou ao Brasil em 2018. A escola argentina oferece cursos de até 210 horas e já formou mais de mil profissionais em áreas como experiência do usuário (UX), marketing digital e análise de dados.

O objetivo do ensino, segundo o presidente da escola Carlos Alberto Julio, não é ensinar “java, html ou uma ferramenta específica”. “Queremos requalificar o profissional para o digital e reposicioná-lo no mercado”. Os cursos são estruturados a partir de pesquisas realizadas com o RH das empresas para entender qual habilidade técnica eles buscam e vagas têm em aberto.

Na pesquisa realizada este mês, o analista mais buscado era justamente o de dados. Desde o início de 2019, a Digital House já promoveu 23 cursos envolvendo ciência, análise e gestão de dados para negócios. Para 2020, a previsão é criar com as empresas programas sobre experiência do consumidor (CX) e engenharia de dados (cloud architect).

A maior dificuldade da escola é encontrar instrutores para transmitir o novo conhecimento. “Um grande banco me disse que se nós criássemos um curso de voz de UX ele contrataria a turma inteira. Isso porque grande parte das experiências que ele cria com seu assistente virtual vem de fora e precisa ser adaptada para o português. Então, a questão é encontrar e formar os instrutores”, diz Julio.

A dificuldade é compartilhada por escolas que focam estritamente no ensino de determinada tecnologia, como a Blockchain Academy. Criada em 2016 para auxiliar brasileiros a entenderem o funcionamento do bitcoin, a instituição já realizou 46 cursos abertos e 39 treinamentos para empresas, incluindo órgãos públicos como Banco Central e Comissão de Valores Mobiliários (CVM). “No começo, os cursos eram tão básicos quanto o que se sabia. Hoje, já estamos realizando discussões em torno da legislação para criptomoedas e falando, por exemplo, sobre “stablecoin” (moeda digital atrelada a uma estatal)”, diz Rosine Kadamani, fundadora da escola. Longe de querer criar especialistas nos meandros do blockchain, ela diz que o objetivo é usar o técnico para “ajudar as pessoas a argumentarem nas principais discussões atuais envolvendo, por exemplo, regulação, direito e privacidade”.

A ideia de que não basta conhecer a tecnologia do momento mas que é preciso entender como aplicá-la é compartilhada por instituições de ensino tradicionais. “Criamos um programa de blockchain que explica a tecnologia, mas também reflete como ela pode reconfigurar o mercado e trazer à tona novos modelos de negócios”, diz Rodrigo Amantea, coordenador acadêmico de educação executiva do Insper.

Na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), as novas tecnologias são vistas “como um conceito transversal” e, por esta razão, a instituição reviu matrizes curriculares para inserir disciplinas como machine learning, inteligência artificial e big data. Segundo o diretor da pós-graduação, Tatsuo Iwata, não dá para mais para desconsiderar, por exemplo, a análise de dados em nenhum curso. “Queremos responder a um movimento do nosso mercado que sempre valorizou as soft skills para discutir o marketing pelo viés comportamental do consumidor, mas que hoje exige uma ênfase completamente analítica”, diz Iwata.

Essa também é uma das apostas da FIA. “O profissional do futuro é aquele que irá pegar a informação disponível e gerar valor para a organização”, diz Alessandra Montini, diretora do Laboratório de Análise de Dados da FIA. Com cerca de 20 professores, o LabData oferece capacitação de dados em toda a trilha da formação executiva — do mais simples ao mais técnico — até chegar ao MBA, realizado em um coworking da Avenida Paulista. “Houve um boom na busca desses cursos nos últimos dois anos, mas fato é que as empresas estão muito atrasadas em projetos de inteligência artificial. Chatbot é de 1960. Falta investimento e também disposição das lideranças para investir em novas frentes e realmente se transformar”, diz.

Publicado originalmente em Valor Econômico no dia 26 de agosto de 2019, conforme link: valor.globo.com