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Governança: o calcanhar de aquiles do projeto Libra

Governança: o calcanhar de aquiles do projeto Libra
16 de outubro de 2019 zweiarts

Governança: o calcanhar de aquiles do projeto Libra?

Mastercard, Visa, eBay, Stripe e Mercado Pago Brasil comunicaram a saída da Associação Libra, projeto de criptomoeda liderado pelo Facebook, no dia 11/10. A criação de uma moeda envolve muitos interesses divergentes

por Rosine Kadamani*

Mastercard, Visa, eBay, Stripe e Mercado Pago Brasil comunicaram a saída da Associação Libra, no dia 11/10. Alegam pressão política por resistência de autoridades, e seguirão monitorando o Libra com maior distância.

O movimento não surpreende, pois a criação de um projeto desta magnitude provoca a resistência do Estado. Qual o tempo certo para que as empresas estabelecidas “virem a chave” e passem a defender de maneira mais assertiva ações mais disruptivas como este capitaneado pelo Facebook, colocando em risco o seu próprio negócio atual por uma aposta de sobrevivência no médio/longo prazo? E como fazer isso de forma sincronizada? Ou seja, como colocar em acordo tantos players relevantes e com interesses tão divergentes, como aqueles envolvidos na cadeia de pagamentos de um cartão de crédito — Visa, Mastercard, e os que já nasceram na era bitcoin, como Coinbase e Xapo? O efetivo alinhamento é o maior desafio.

Governança é um tema de fundamental importância em qualquer tipo de projeto envolvendo um grupo de agentes. No universo blockchain/DLT, assim como em projetos em geral, este é muitas vezes um ponto de fragilidade pois muitos permanecem primariamente apegados à camada de ter uma boa ideia ou uma boa solução tecnológica, sendo que os aspectos políticos e de negócios são tão relevantes quanto isso, ou mais e muitas vezes enfrentados a posteriori, causando desalinhamentos e evasões. Mas realmente no universo blockchain/DLT este tema é ainda mais comum, devido à complexidade do assunto.

Dando um passo para trás, visando melhor alcance da visão macro, na imagem abaixo faço um esforço de representação de como cada um dos elementos: blockchain/Distributed Ledger Technologies (DLT), tecnologia e negócio interagem, evidenciando que são camadas diferentes em um projeto.

Nesta imagem:

CRIPTOMOEDAS (FOTO: ROSINE KADAMANI)

– Blockchain/DLT está sendo considerado como um gênero, do qual são espécies: o blockchain do Bitcoin, do Ethereum, o Hyperledger, o Corda, o Stellar, infraestruturas próprias, e tantos outras que hoje são base de exploração em projetos mais libertários ou mais corporativos, e cada qual com suas características, que podem ser muito diferentes umas das outras, portanto levando a diferentes potenciais de valor agregado e projetos.

– Esta figura também nos faz perceber como é relevante hoje, e como será ainda mais relevante a interação entre as diversas áreas de uma empresa: negócios, T.I., jurídico, outras.  A convergência destas capacidades e experiências a partir da exploração de infraestruturas de base com potencial tão interessante como estas novas é o que permitirá a construção de projetos mais inovadores e promissores.

Isto dito, a preocupação com governança é uma realidade comum a todos os negócios, mas em particular no universo do blockchain/DLT merece uma atenção especial no caso dos agentes externos devido à complexidade da criação de qualquer negócio envolvendo o assunto, como explicitado acima; bem como ao conceito de rede que lhe é subjacente – envolvendo esforços de negócios entre concorrentes – e à consequente potencial sensibilidade dos temas e propostas tratados, como toda a parte estratégica. No projeto Libra, uma camada adicional deve ser considerada, que é o esperado desgaste com instituições do Estado devido ao fato de o projeto envolver a intenção de criação de moeda de escala nativamente global (alcançando ⅓ da população no dia zero).

Não se pode garantir que este seja o ponto fraco do Libra, mas é um ponto relevante de atenção. Como, em time, enfrentar obstáculos tão grandes que, com uma estratégia falha, poderia acabar com os negócios individualmente? E quantos outros times estão por aí esperando a falha ou mesmo a vitória deste, para usufruírem da experiência dos pioneiros sem ter tanta exposição?  Aguardemos as cenas dos próximos capítulos.

*Rosine Kadamani é fundadora da Blockchain Academy

Publicado originalmente em Epóca Negócios no dia 14 de outubro de 2019, conforme link: epocanegocios.globo.com