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Grande demais para ignorar: O mercado tradicional se rende à criptoeconomia?

Grande demais para ignorar: O mercado tradicional se rende à criptoeconomia?
16 de abril de 2021 Vinicius Chagas

Grande demais para ignorar

O mercado tradicional se rende à criptoeconomia?

Por Isac Costa

 

O início

Em 03.01.2009, o primeiro bloco foi inserido no blockchain do Bitcoin, trazendo em seus dados uma manchete sobre o socorro estatal aos bancos após a crise de 2008. Por algum tempo, antes do “dinheiro de nerd” se tornar a promessa de “dinheiro do futuro”, esse novo mundo era complexo demais para ser entendido e ficou restrito a um círculo de pessoas capazes de relacionar criptografia, redes de computadores, economia monetária e doses de anarquia cyberpunk em diferentes graus. A gênese do blockchain não era paradisíaca, mas sim uma reação a um sistema financeiro excludente, irresponsável e criador de desigualdades, aliado a um Estado parasitário, omisso e fiscalmente exausto. Até que, em um dado momento, seu misterioso criador comunica que “passou a se dedicar a outras coisas” e o tempo fez com que suas palavras ganhassem um tom mítico ou, para muitos, profético.

Em 14.04.2021, as ações da Coinbase começam a ser negociadas na Nasdaq e, em meio à perplexidade e à euforia de muitos, o valor de mercado de uma plataforma de negociação de bitcoins e seus descendentes é maior do que o valor das principais bolsas de valores do mundo. No mesmo dia, Bernie Maddoff falece aos 82 anos na prisão por ter orquestrado um dos maiores golpes financeiros da história.

De um lado, tem-se um fato icônico do reconhecimento, pelo mercado financeiro tradicional, da criptoeconomia. De outro lado, muitos ainda questionam se estaríamos diante de uma nova bolha financeira, uma criptomania, reencarnação da tulipmania holandesa de séculos atrás. Em meio a movimentos estrondosos de preços, fiéis e incrédulos propagam suas teses.

Desta vez vai ser diferente?

 

Contágio

Sempre é difícil identificar o exato momento em que uma ideia se torna viral. Podemos afirmar que os fortes movimentos de valorização do bitcoin em seus primeiros anos atraíram a curiosidade de muitos. Aos poucos, o fascínio acerca do sobe e desce dos preços e o caráter místico de sua criação e funcionamento foram acompanhados da constatação de um potencial revolucionário para o modo como a informação é gerada, compartilhada e verificada em diversas situações – poderíamos dispensar a confiança em terceiros, tais como bancos, bolsas e cartórios, pois, embora não possamos confiar em uma pessoa isoladamente, podemos confiar na coletividade.

O ceticismo em torno do movimento era perfeitamente compreensível. Além da utilização da opacidade nas transações para a prática de atos ilícitos, a inovação financeira mostrou-se terreno fértil para golpistas. De certo modo, o caráter fraudulento de certas iniciativas foi diretamente proporcional ao barulho com que alardeavam suas vantagens. Alguns tropeços em projetos com falhas de programação e segurança também não ajudaram. Ainda, a plataforma Ethereum, epicentro da revolução que permitiu expandir o blockchain para além do Bitcoin fora criado por um jovem russo muito mais próximo do mundo dos games do que do empreendedorismo. Some-se a isso tudo a volatilidade excessiva dos preços e a proliferação da intermediação – via corretoras de criptoativos – em um mercado que fora idealizado para aposentar intermediários, criando “potes de ouro” para ataques cibernéticos e para a atuação governamental.

Some-se ao ceticismo, o efetivo combate à insurgência financeira, com discursos enfatizando riscos e minimizando os benefícios, proliferação de haters, além de práticas anticoncorrenciais como o encerramento unilateral de contas de corretoras de criptoativos pelos bancos. Sobre esse movimento, uma das melhores frases que ouvi, cuja autoria infelizmente não consegui recuperar, foi a de que “você pode odiar o Bitcoin, mas compre pelo menos uma pequena fração para não odiar a si mesmo depois”.

 

Mas, quanto deve valer um ativo até que digam que tem, de fato, algum valor?

Sabemos que uma moeda – unidade de conta, meio de troca e reserva de valor – é estabelecida pela força obrigatória de um Estado ou, alternativamente, por um consenso social. Não sabemos exatamente quando foi estabelecido um consenso sobre a utilização do ouro metálico ou do diamante como reserva de valor. Qualquer sistema financeiro, qualquer economia monetária tem como elemento fundamental a fé de seus participantes, a crença no fato de que o bem físico (ou também virtual, como percebemos no passado recente) seja aceito pelos demais e que, por isso, tenha algum valor, a partir de sua escassez.

No momento em que esse texto é escrito, parafraseando o Deustche Bank, o Bitcoin se tornou grande demais para ser ignorado. Reguladores se mostram mais receptivos, fundos de investimento passam a alocar seus recursos em criptoativos, empresas anunciam compra de quantidades massivas de Bitcoin e celebridades brincam com hashtags gerando tsunamis de compras.

Bancos tradicionais passam a oferecer investimentos diversos em criptoativos, além de produtos e serviços atrelados a eles e a mídia tradicional chega a mencionar que o Bitcoin é um “touro enjaulado”. Ativos tradicionais passam a ser “tokenizados” e uma revolução nas infraestruturas de mercado financeiro pode mudar a lógica de funcionamento das bolsas.

 

Clímax, epílogo ou prefácio?

A listagem da Coinbase em uma bolsa tradicional é um fato histórico, para o bem ou para o mal. A história sempre é revista pelos olhos de quem está no futuro. Como Orwell sugere em 1984, “quem controla o passado, controla o futuro; quem controla o presente controla o passado”. O embate entre o mercado tradicional e a criptoeconomia é, na verdade, uma dança coreografada e não há como saber quais serão os próximos movimentos. Tanto revoluções permanentes como golpes efêmeros estamparam capas de revistas e manchetes na mídia no passado. O aplauso intenso e onipresente é capaz de desaparecer tão rapidamente quanto surgiu, juntamente com o big money das instituições tradicionais.

A mensagem principal que gostaria de transmitir com esse texto é a de que a sobrevivência depende da nossa capacidade de nos adaptarmos às mudanças. Sua permanência no mercado financeiro não decorre do resultado de uma única operação – é um “jogo infinito”, cujo objetivo é se manter nele. Qual for a sua opinião sobre Bitcoin, blockchain, criptoativos e a criptoeconomia, o modo pelo qual isso tudo influenciará (ou não) a sua vida dependerá da sua capacidade de se proteger e examinar criticamente as informações, opiniões alheias e, quando necessário, rever suas próprias posições.

Há uma frase atribuída a Franz Kafka no sentido de que, ao final de toda revolução, só o que resta é o limo de uma nova burocracia – as inovações, por vezes, se transformam no inimigo que elas pretendiam aniquilar, no melhor estilo da transformação de Anakin Sywalker em Darth Vader, ou, então, são assimiladas pelo sistema, como na trilogia “Matrix” ou no episódio “15 milhões de méritos” da série “Black Mirror” – vide o esforço dos bancos centrais para a criação de suas moedas digitais. A vida imita a arte, a qual também tem sido tokenizada.

Por ora, contudo, só me resta reconhecer, juntamente com muitos, de que Victor Hugo estava certo ao afirmar que “nada é mais poderoso do que uma ideia cuja hora é chegada”. Não há como ignorar o Bitcoin e tudo o que veio dele e o que ainda virá.

 


 

Isac Costa. Professor nos cursos de pós-graduação em Direito do Ibmec SP. Doutorando (USP), mestre (FGV) e bacharel (USP) em Direito. Engenheiro de Computação (ITA). Ex-analista de Mercado de Capitais (CVM). Consultor em Regulação Financeira. Autor do livro “High Frequency Trading em Câmera Lenta: Compreender para Regular” e coordenador da obra “CryptoLaw: Inovação, Direito e Desenvolvimento”. |