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O preço do bitcoin está subindo. Isso importa?

O preço do bitcoin está subindo. Isso importa?
3 de abril de 2019 Zwei Arts

O preço do bitcoin está subindo. Isso importa?

Por Rosine Kadamani

O preço do bitcoin alcançou o maior valor em cinco meses nessa semana. Apesar de alguns momentos em que o preço ameaçou subir de forma mais continuada, não está claro se permanece ou não o “bear market” das criptomoedas. Significa que a confiança de certos agentes neste mercado foi abalada, especialmente no caso daqueles que tiveram um primeiro contato durante o pico de alta extraordinariamente acentuado no final de 2017. O valor financeiro associado a este mercado como um todo está girando em torno de US$ 170 bilhões, enquanto no pico de 2017 bateu em torno de US$ 800 bilhões e, no mais recente pico de baixa, esteve em torno de US$ 100 bilhões.

Nesse cenário, apesar de o interesse e os números absolutos apontarem para mais investimentos no setor, experimentou-se uma realidade frustrante ocorrendo em paralelo. Certos projetos amargaram prejuízos, muitas empresas demitiram e faliram, ou podem falir em breve, certos investidores estão repensando em como alocar o seu budget, profissionais abriram mão de apostas radicais e se recolocaram no mercado “tradicional”. Dados de pesquisa da Gartner indicam que, como um todo, o grande pico de euforia já passou, e estamos evoluindo para um momento de baixa, que será seguido de um novo momento de interesse crescente, menos alavancado e mais sustentado, pois mais maduro.

Este é um excelente momento para refletir sobre preço X valor das criptomoedas. O preço é aquilo que se paga, que se cobra, e depende única e exclusivamente da regra básica de um mercado, a lei da oferta e da demanda. É um dado objetivo. Já o valor é um elemento subjetivo e individual; é aquilo que as partes da relação comercial determinam como sendo relevante para determinar o preço. O valor percebido por um comprador com relação a determinada criptomoeda pode ser, por exemplo, fundamentado nos seguintes fatores:

·  Exploração de sistema de pagamentos alternativo, seja por questões puramente financeiras e comerciais ou alinhamento com uma ideologia mais libertária e anarquista;

·  Intenção de lucro, pura e simplesmente, apostando no ativo em si ou apenas no movimento de mercado;

·  Exploração do potencial de uso da lógica tecnológica aprendida com o bitcoin para outros fins, pelo que ficou conhecido genericamente como “blockchain”; e

·  Expectativa de criação de reserva de valor, considerando uma desconfiança sobre o funcionamento do sistema financeiro tradicional (especialmente percebido como perspectiva para o bitcoin, considerando sua escassez entre outras características).

Enquanto parte das perspectivas de valor estão diretamente associadas ao preço (especialmente a segunda, nos exemplos acima), outras independem dele. Muitas outras perspectivas podem ser exploradas se analisadas as mais de duas mil criptomoedas em negociação no momento. Por exemplo, independentemente do preço das criptomoedas, atualmente é possível:

·  Realizar trocas financeiras nacionais e internacionais de forma direta entre as partes interessadas, utilizando apenas e tão somente acesso à internet, e sem qualquer interferência e/ou possibilidade de restrição fática do Estado, de qualquer instituição financeira e/ou de qualquer terceiro. Evidentemente, considerando-se as possibilidades tecnológicas, devendo ser conhecidas e mensuradas as restrições jurídicas eventualmente aplicáveis;

·  Desenvolver projetos contendo bases de dados descentralizadas, gerenciadas de forma mais eficiente – informações já podem potencialmente ser criadas e trocas de forma mais transparente, mais ágil, mais segura e menos custosa;

·  Preservar o valor de suas reservas financeiras – vide o caso recente e atual da crise Venezuelana, em que o bitcoin acabou sendo uma saída para a população local preservar minimamente o valor de seu capital;

·  Trocar recursos financeiros com mais privacidade – enquanto o mundo legal/regulatório continua tendendo a convergir a um modelo de full surveillance (vigilância total), apesar das regras sobre privacidade, uma consciência coletiva sobre os riscos de exposição de dados pessoais permite a valorização de criptomoedas com enfoque em privacidade.

Em outras palavras, a despeito da frustração de certos especuladores mais imediatistas, e de certos agentes do mercado terem dificuldade de se sustentar, a baixa de preços não pode ofuscar o valor já aportado pela existência e desenvolvimento das criptomoedas, que é perene e muito ainda terá a contribuir para a modelagem das novas formas de relação e interação que se desenham para os próximos anos.

Aliás, quanto mais se apreende esta realidade mais fácil desapegar-se dessa realidade momentânea e crer em uma valorização no médio/longo prazo. Não necessariamente do mercado todo, pelo contrário, mas especialmente com relação àquelas que puderem de fato comprovar maior entrega de valor.

*Rosine Kadamani é co-fundadora da Blockchain Academy, rede colaborativa de educação voltada para formação multidisciplinar focada em bitcoin, blockchain e outros temas correlatos. Trabalhou como advogada por 13 anos, especializada em direito bancário