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Quais os riscos, benefícios e alternativas ao investimento em fundos de cripto? – Parte I

Quais os riscos, benefícios e alternativas ao investimento em fundos de cripto? – Parte I
3 de maio de 2021 Vinicius Chagas

Quais os riscos, benefícios e alternativas ao investimento em fundos de cripto? – Parte I

Por Isac Costa e Vinícius Chagas*

 

Há uma máxima em matéria de investimentos acerca da diversificação de riscos: “Nunca coloque todos os ovos na mesma cesta. Que tal pararmos e refletirmos sobre  as consequências práticas dessa afirmação?

Nessa série de textos, que se inicia hoje, partimos da premissa de que você irá alocar uma parcela do seu patrimônio em criptoativos para mantê-los por algum tempo, na expectativa de sua valorização; ou seja, de que você irá enxergar os criptoativos (classe da qual as criptomoedas fazem parte) como um dos componentes da sua carteira de investimentos

No entanto, após optar por investir em criptoativos, você ainda terá de tomar outra decisão: investir diretamente via exchange ou via fundos de investimentos?

 

Quem é quem?

As exchanges são empresas que oferecem serviços de negociação e custódia de criptoativos,  permitindo saques e resgates em moedas estatais ou em criptoativos [1]. Portanto, as exchanges nos permitem transitar entre o mercado financeiro tradicional e o mercado cripto. 

Já os fundos de investimentos são uma forma de investimento coletivo, onde os recursos de vários investidores (os cotistas) são agregados, a fim de serem alocados em diversos instrumentos financeiros. Dessa forma, o cotista delega a tarefa de decidir sobre em quais ativos investir – a gestão de sua carteira – a um profissional.

Ao decidir que irá adquirir e manter sua posição por meio de exchanges ou fundos de investimento, saiba que você não terá a efetiva propriedade de seus criptoativos: sem as chaves, eles não são seus. Contudo, os riscos e alternativas para a guarda dos criptoativos serão objeto de outro texto desta série. Por ora, vamos focar em te mostrar os benefícios que podem ser auferidos pela utilização de intermediários.

 

No que investir?

Dentre os milhares de criptoativos disponíveis, surgem dúvidas sobre como começar, no que e como investir. Muitos são atraídos para o mercado em momentos de grande valorização das cotações, mas lembre-se: o resultado só é obtido ao final da operação e não adianta ver um ativo valorizar para depois os preços derreterem. O mercado de criptoativos é repleto de oportunidades de ganhos, mas estas são associadas a riscos relevantes, principalmente por conta da alta volatilidade.

É preciso escolher quais cestas utilizar e como distribuir os ovos entre elas. Você pode fazer isso por conta própria, analisando potenciais candidatos com base na sua crença no projeto, riscos regulatórios, grau de correlação com o mercado tradicional, histórico recente de movimentos dos preços e volumes negociados, entre outros critérios. 

Mas isso requer tempo e conhecimento. É aqui que surgem problemas, pois não é trivial a tarefa de coletar, verificar e utilizar a enorme quantidade de informações disponíveis sobre criptoativos, embora já existam ferramentas para isso (algumas até bastante amigáveis ao usuário). No meio do caminho, muitas pessoas acabam sendo seduzidas por esquemas fraudulentos que oferecem atalhos para retornos elevados com pouco ou nenhum risco

No mercado cripto ou no mercado tradicional, ou você toma as decisões a respeito de quais ativos comprar, quanto irá comprar de cada ativo e quando deverá iniciar ou encerrar posições ou, então, delega a gestão de seus recursos a um profissional. 

 

Por onde investir?

Geralmente, quem quer gerir sua própria carteira, opta pelo investimento via exchange. Mesmo os HODLers [2] (holders, termo do mercado cripto para os investidores que pretendem manter as posições independentemente da cotação) utilizam exchanges para negociar criptoativos antes de transferi-los para uma cold wallet, sob sua própria custódia.

Por outro lado, algumas pessoas podem optar pela alocação de recursos via fundos de investimento, que são regulados pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e classificados conforme os tipos de ativos e fatores de risco nos quais os recursos dos investidores são alocados (ações, renda fixa, multimercado, câmbio, etc.). Normalmente, esses fundos cobram uma taxa de administração sobre o valor depositado e cada fundo tem regras específicas de aporte mínimo, restrições a resgates, composição da carteira, taxa de performance, entre outras. 

Observe que não se trata de uma assessoria personalizada. Ainda caberá a você escolher, dentre os diferentes tipos de fundos, em quais deve investir. Contudo, a complexidade do processo de alocação de recursos é reduzida, uma vez que você pode escolher uma parcela do seu patrimônio para renda fixa, outra para câmbio e, mais recentemente, para exposição a criptoativos. 

No mercado de valores mobiliários, todo o controle financeiro e da titularidade dos ativos é feito pelas administradoras de fundos, junto aos sistemas das instituições financeiras e da B3. Apenas gestores registrados na CVM podem tomar as decisões de investimento com recursos de terceiros. No mercado de criptoativos, a depender de como a proposta de investimento é realizada, a CVM poderá entender que o serviço em questão é uma oferta irregular de valores mobiliários. Por exemplo, já houve um caso nesse sentido, em que os tokens emitidos eram referenciados em uma cesta de criptoativos que seriam geridos por uma empresa. 

Há insegurança jurídica quando profissionais oferecem serviços de gestão de recursos com investimentos em criptoativos sem que, para isso, constituam fundos de investimento e obtenham todos os registros necessários perante a CVM. Mesmo para fundos e gestores registrados, o caminho ainda não é totalmente claro. A CVM esclareceu em setembro de 2018, por meio de um Ofício Circular, que o investimento em criptoativos só é admitido por meio da aquisição de cotas de fundos constituídos no exterior. 

 

Quem é responsável?

Para a CVM, é responsabilidade do gestor do fundo analisar os riscos e ser diligente para evitar que os recursos sejam alocados em projetos fraudulentos ou que estejam associados a condutas ilícitas, especialmente lavagem de dinheiro. Em termos práticos, o entendimento da CVM é o de que fundos constituídos no Brasil não podem investir diretamente em criptoativos, apenas indiretamente, por meio de fundos de investimento no exterior. 

 

Onde os fundos podem investir?

Em regra, os fundos destinados ao varejo podem investir no máximo 20% do seu patrimônio em ativos no exterior. Por isso, é muito importante que você verifique o Regulamento do Fundo no tocante à composição da carteira. Tem sido comum a proposta de alocar apenas 20% dos recursos em fundos de criptoativos no exterior e o restante em títulos públicos federais e outros instrumentos de renda fixa, para atender à regulação vigente. 

Logo, sua exposição não necessariamente será de 100% em criptoativos e deverá ser feita de modo indireto no exterior. O que isso significa na prática? Significa dizer que os fundos de investimento em criptoativos não adquirem diretamente esses ativos, na verdade, o que é permitido pela CVM é a aquisição de meios indiretos, como por exemplo a aquisição de cotas de fundos e derivativos, contando ainda com a restrição de serem negociados em jurisdições externas. A exposição pode ser maior apenas para investidores qualificados, definidos pela regulação como sendo pessoas com mais de R$ 1 milhão disponível para investimentos.

Para contornar esse obstáculo, uma inovação recente foi o surgimento de fundos de índice de criptoativos – o HASH11, cujas cotas são negociadas em bolsa (você compra e vende como se fosse uma ação) captou mais de R$ 600 milhões. Nesses fundos, a política de investimento consiste na alocação de um percentual significativo em cotas de um fundo de um índice alvo, isto é, na participação em um fundo constituído no exterior cuja carteira reflita a composição de um índice de criptoativos – no caso do HASH11, trata-se do Nasdaq Crypto Index.

Parece complicado, certo? Mas a ideia é simplificar. Em vez de a administração da carteira envolver decisões que chamamos de gestão ativa – análise e seleção de quais ativos para investimento – adota-se o modelo de gestão passiva, quando o fundo se limita a replicar a composição de uma cesta de ativos. No exemplo acima, a cesta contém Bitcoin (78,61%), Ethereum (16,86%), Litecoin (1,58%), Bitcoin Cash (1,03%), Chainlink (1,27%) e Stellar Lumens (0,65%). Logo, o fundo escolhe os ativos para você nesta proporção e operacionaliza a aquisição e a custódia, algo que você teria que fazer por conta própria.

No próximo texto dessa série, vamos falar da diferença entre gestão ativa e gestão passiva e como comparar os custos, riscos e benefícios de você mesmo fazer a gestão de seus criptoativos em comparação com a aplicação em fundos de investimento regulados

Fiquem ligados e ligadas!

 


 

Isac CostaProfessor nos cursos de pós-graduação em Direito do Ibmec SP. Doutorando (USP), mestre (FGV) e bacharel (USP) em Direito. Engenheiro de Computação (ITA). Ex-analista de Mercado de Capitais (CVM). Consultor em Regulação Financeira. Autor do livro “High Frequency Trading em Câmera Lenta: Compreender para Regular” e coordenador da obra “CryptoLaw: Inovação, Direito e Desenvolvimento”.

Vinícius ChagasAnalista Educacional na Blockchain Academy. Graduando em Direito (IBMEC) e cursando formação complementar em Desenvolvimento de Software. Possui extensão em Finanças (FGV) e em Valuation de Empresas (IBMEC). Certified Blockchain Expert e Certified Cryptocurrency Expert (Blockchain Council).

 

Referências:

[1] Definição adaptada da IN RFB Nº 1888, 03 de maio de 2019;

[2] Não, você não leu errado! A palavra em inglês HOLD significa segurar, ou manter, uma abreviação da modalidade Buy and Hold para investimentos. O termo HODL, grafado de forma incorreta, originou-se em dezembro de 2013, quando o usuário GameKyuubi, Mike, do fórum de discussão BitcoinTalk, postou um desabafo. Mike havia bebido álcool e estava desanimado com a recente queda do Bitcoin de US$ 716 para US$ 438, possivelmente por causa de notícias de repressão da China. Embora tenha percebido o erro de digitação, estava bravo com a situação, e resolveu deixar como estava. Mike concluiu que a melhor estratégia naquele momento era HOLD. (“O que é HODL no mundo das criptomoedas? Saiba agora mesmo!”, Disponível em: https://blog.mercadobitcoin.com.br/o-que-e-hodl-no-mundo-das-criptomoedas-saiba-agora-mesmo )