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Blockchain e tokenização no setor de infraestrutura

Blockchain e tokenização no setor de infraestrutura
13 de abril de 2021 Vinicius Chagas

Blockchain e tokenização no setor de infraestrutura

Por Tatiana Revoredo

 

As inovações digitais estão transformando a economia global, impactando profundamente setores como o de infraestrutura, manufatura, comércio e agricultura, tornando-os mais conectados, inteligentes e eficientes.

A transformação digital é que ela pode levar a novas soluções, desbloqueando possibilidades hoje imprevisíveis.

Isso é especialmente verdadeiro na indústria de infraestrutura, pois o potencial de inovação dentro do setor é grande.

Ciente disto e do fomento da transição econômica do mercado de infraestrutura, o G20 (Grupo dos 20, criado em 1999, formado pelos ministros de finanças e chefes dos bancos centrais das dezenove maiores economias do mundo, mais a União Europeia) organizou um plano para o setor de infraestrutura cujo principal atributo está em apontar maneiras de melhorar o ambiente de investimentos em infraestrutura.

 

Imagem representativa do G20
Créditos da Imagem: Tatiana Revoredo

Este guia tem como principais características uma padronização mais abrangente da infraestrutura ao longo de toda cadeia de valor, incluindo:

  • padronização contratual e financeira;
  • uso dos dados para apoiar decisões de investimento em infraestrutura mais fundamentadas;
  • soluções para melhor gerir riscos nos investimentos em infraestrutura por meio de mais transparência, identificação ou avaliação de riscos, simultaneamente a estratégias eficazes de mitigação; e por fim,
  • verter ganhos de eficiência, identificação e redução de riscos em custos de capital mais baixos e cobranças de riscos mais eficientes para ativos de infraestrutura.

Aqui, importante perceber que as diretrizes apontadas pelo G20, harmonizam-se com o trabalho da OCDE de medição de dados e desempenho e finanças referente a infraestrutura, e se ajustam perfeitamente ao contexto das arquiteturas blockchain.

 

Escritório do G20
Créditos da Imagem: Tatiana Revoredo

A integração de tecnologias fundamentais, como blockchain, Internet das Coisas (IoT) e inteligência artificial (AI), pode acelerar a transição econômica dos principais serviços de infraestrutura, fornecendo plataformas sustentáveis e desbloqueando oportunidades ao longo da cadeia de valor.

De início, blockchains podem ser utilizados ​​para gerenciamento de registros de transferência de valor (via criptoativos), de forma “automatizada”.

Isto é, sem exigir que uma entidade centralizada valide transações, tais funções são realizadas “descentralizando” a rede onde o registro das transações de valor estão armazenadas, possibilitando aos participantes da rede uma “fonte de verdade única”, transparente e imutável.

Outra vantagem do uso de arquiteturas blockchain no setor de infraestrutura é a possibilidade de usar “contratos inteligentes” – habilitados pela tecnologia blockchain – para execução automatizada de uma transação, quando uma ou mais pré-condições são atendidas, potencializando ganhos significativos de eficiência.

 

Tecnologia Blockchain: Smart Contracts
Créditos da Imagem: Tatiana Revoredo

Agora, com a tokenização de ativos físicos e digitais é possível sua negociação direta entre os participantes da rede blockchain, sem a necessidade do uso de uma “estrutura de negociação terceirizada”, o que diminui sensivelmente o custo deste tipo de operação.

Aqui, vale a pena abrir um parênteses para falar um pouco sobre tokenização.

Tokens são unidades que representam algo, e podem servir não apenas como troca e pagamento, mas também para retratar um objeto físico ou virtual. Um token, portanto, pode literalmente representar tudo: a participação numa empresa, ouro físico, o direito de usar um serviço, a propriedade de uma obra de arte, dentre outros.

Vale destacar que o interessante é como a tokenização de ativos digitais é capaz de transcender a natureza ilíquida e segregada de alguns mercados tradicionais como o de commodities, possibilitando que ativos ilíquidos  — no caso,  ouro físico  — se tornem mais acessíveis e  sejam compartilhados em toda a cadeia de valor, sem criar novos riscos financeiros sistêmicos.

Pois bem, as novas ferramentas e modelos de negócio propiciados pela tecnologia blockchain permitem, portanto, registros digitais “tokenizados” (como, por exemplo, royalties, direitos de propriedade etc.) no contexto do ciclo de vida da infraestrutura, desde financiamento e compras, até licitação e operações.

Tais operações pertinentes à infraestrutura, todavia, apresentam alguns desafios, como:

  1. gargalos de capacidade restringindo as oportunidades de investimento dos governos, levando a um déficit de financiamento em projetos de infraestrutura. A participação dos investidores também é frequentemente limitada por causa do desalinhamentos entre o perfil financeiro ou de risco dos projetos de infraestrutura, e as demandas dos investidores.
  2. esforços em grande parte não transparentes no tocante ao alinhamento com as ações de entidades ou ao cumprimento de normas, incluídos critérios ambientais, sociais e de governança.
  3. decisões de investimento, em alguns casos, são tomadas sem considerar o impacto climático.

 

Créditos da Imagem: Tatiana Revoredo

Assim sendo, apesar dos desafios apontados acima e da falta de maturação do blockchain, isto não tem sido um impeditivo para o crescimento da aplicação de soluções blockchain como backbone digital em projetos e operações de infraestrutura.

Existem uma infinidade de protótipos em funcionamento, e iniciativas colaborativas voltadas para transporte, energia e agricultura, com o objetivo de incrementar a eficiência-transparência.

O mercado já percebeu, tendo em conta as diretrizes do G20 e os dados de medição da OCDE, que a tecnologia blockchain é uma ótima ferramenta para solucionar problemas de longa data, e colocar finalmente o setor no século XXI.

 


 

Tatiana Revoredo

Chief Strategy Officer na empresa The Global Strategy

Membro fundadora da Oxford Blockchain Foundation. Representante do European Law Observatory on New Technologies. Estrategista em Aplicativos de Negócios Blockchain pelo MIT. Estrategista em Blockchain pela Saïd Business School, University of Oxford.

Autora dos livros “Criptomoedas no Cenário Internacional”, “Blockchain – Tudo o que você precisa saber”, e “Bitcoin, CBDC, DeFi e Stablecoins – Qual o futuro do dinheiro”.